quarta-feira, 16 de junho de 2010

Can't read my pop face!

Depois de toda a polêmica e controvérsia nos comentários do meu post sobre o clipe de ‘Alejandro’, tornou-se estritamente necessário publicar aqui um novo texto, esclarecendo certos aspectos da minha postagem anterior que foram equivocadamente interpretados.

Alguns leitores terão que me perdoar, mas uns comentários demonstraram uma leitura superficial do texto, ou mesmo algum problema de compreensão. Houve indignação de um fã fervoroso de Lady GaGa – sem argumentos para refutar o que eu havia escrito, ele preferiu simplesmente falar mal de Kylie, quando o foco do texto era discutir o limite entre a inspiração, a criação e a cópia, especificamente no clipe de ‘Alejandro’.

Então, já que outras divas da música foram colocadas em questão, resolvi escrever, desta vez, para atribuir a cada uma delas seus méritos e erros, embora seja difícil comparar artistas, porque cada um tem sua importância e seu papel na música, e mesmo que não propositalmente, dá uma certa direção a sua carreira.
 
Daí a dificuldade tamanha, e às vezes até incoerente, de comparar estas criaturas intocáveis: Madonna, Kylie, GaGa, e por aí vai... Cada uma delas tem algo a mostrar e transita em um universo específico.

Madonna é quase uma divindade, sinônimo de reinvenção perene, criadora de imagens icônicas. Kylie é a alegria na música, o carisma, a voz. GaGa é o impacto, o toque bizarro, a aura do rock no pop.

Dizer quem é melhor é algo quase impossível, e mesmo inútil, porque a maioria dos fãs se sente ofendido com qualquer crítica (basta ver os comentários do post sobre ‘Alejandro’). Mas vou tentar ao menos fazer breves considerações, um olhar rapidíssimo sobre a trajetória de figuras marcantes da música.

Um dia desses, ouvi alguém dizer que o tempo da Madonna passou, e agora quem reina é a GaGa. Concordo em parte; Lady GaGa indiscutivelmente é a artista de maior visibilidade hoje, tudo o que ela faz vira um fenômeno instantâneo. Isso, no entanto, não garante que ela monopolize o cenário musical, e ninguém jamais fará isso. A arte só sobrevive com a diversidade.

Se o ‘momento’ da Madonna realmente tivesse passado, a ‘Sticky & Sweet’ não seria a maior turnê da história. É precipitado decretar o fim de uma carreira já de quase trinta anos no topo, ainda mais quando se fala em uma artista capaz de se reinventar o tempo todo, surpreendendo em cada retorno. Vale lembrar que em 1998 ela estava praticamente esquecida (se é que isso pode acontecer), sem dar as caras por quatro anos, quando lançou ‘Ray of Light’, considerado por muitos críticos um dos melhores discos da carreira, e mesmo da história da música.

A influência de Madonna vai muito além da música, e isso ninguém pode contestar, e não conheço outro(a) cantor ou cantora que tenha conseguido isso nas últimas décadas. Ela teve vital importância como instrumento de contestação política e ideológica, rompendo paradigmas sexuais e escancarando suas opiniões, indo de encontro aos preconceitos profundos da sociedade.

Madonna defendeu os direitos dos gays numa época em que a homossexualidade ainda era considerada doença pela própria ONU, e falou abertamente sobre AIDS quando isso ainda aterrorizava o mundo, que mal sabia que doença era essa.

Se você acha que hoje ainda existe preconceito, imagine o que significou, vinte e cinco anos atrás, uma artista de fama mundial cantando ‘Express Yourself’. O que poderia ser simplesmente uma música divertida, na voz de Madonna se tornou um discurso a favor da liberação sexual. Foram confrontados paradigmas religiosos (em ‘Like a Prayer’), sexuais (em ‘Justify My Love’ e ‘Erotica’) e políticos (em ‘American Life’).

A trajetória de Madonna é espetacular, e até hoje nenhuma cantora se equipara a ela, seja na longevidade do sucesso, seja no conteúdo de sua obra, que concilia em cada momento a ideia, o ritmo e o visual. A década de 1980 ficou marcada pelos crucifixos. Com a exaltação da sexualidade vieram os peitos de cone. Na década de 1990 o clima do CD ‘Erotica’ se traduziu visualmente no ‘Sex Book’, com doses generosas de androginia e sadomasoquismo. ‘Music’ e o visual country são indissociáveis, assim como ‘American Life’ e a distópica alusão às armas e símbolos militares, numa crítica feroz ao governo Bush e à máquina de guerra estadunidense.

Mesmo hoje, é indubitável que Madonna faz sucesso e jamais deixará de ser percebida. Lamento, entretanto, que sua criatividade já não seja a mesma. Seus trabalhos após o ‘American Life’ demonstram que ela deixou de ditar tendências para segui-las. Foi o que aconteceu com o péssimo ‘Hard Candy’, fruto maldito da modinha Timbaland. E mesmo a ‘Confessions Tour’, de 2006, embora seja fantástica, acaba por me decepcionar em alguns momentos, quando vejo figurinos descaradamente copiados de shows da Kylie.

E mais uma vez se chega ao ponto do meu texto anterior: qual é o limite entre a cópia, a inspiração e a homenagem? Tenho certeza de que Madonna jamais teve a mínima intenção de homenagear Kylie, e é inevitável perceber semelhanças, conhecendo o trabalho das duas.

Ressalto que nenhuma ideia surge absolutamente do nada; o artista realmente tem alguma fonte onde busca inspiração, seja qual for. A questão é onde buscar essa inspiração: em algo que ninguém jamais usou, ou em algo que já foi apropriado por algum artista. E tenho um ótimo exemplo para isso.

Quando assisti à abertura da ‘Fever Tour’, de 2002, fiquei fascinado ao ver a Kylie saindo exuberante de dentro de um robô. A inspiração no filme ‘Metropolis’ era óbvia (para quem conhece um mínimo de cinema), e Kylie jamais procurou roubar uma ideia ao se inspirar no filme, ela criou uma nova obra de arte, com um resultado magnífico, mesmo deixando claros os créditos de ‘Metropolis’.

Fiquei bestificado, no entanto, vendo a Beyoncé, em uma apresentação, saindo de um robô absolutamente idêntico ao que Kylie usara. Aí sim, ultrapassou-se o limite da inspiração ou da homenagem e se fez uma cópia descarada! Mesmo que Beyoncé quisesse também se inspirar no mesmo filme, deveria tê-lo usado de forma diferente.

Eis um mérito de Kylie: seus clipes e suas performances ao vivo não lembram nada que qualquer outra cantora já tenha feito. Sua música é contagiante, sem o toque pitoresco e único que Madonna já teve, e sem profundidade nas letras; para Kylie o que importa é dançar e se divertir, e isso ela faz como ninguém. É impossível assistir a um de seus shows e não se deixar envolver pelo enorme sorriso e pela aura encantadora da Deusa do Amor em pessoa, com o apropriadíssimo título do novo CD, ‘Aphrodite’.

Cada show de Kylie é um espetáculo onde a voz e o glamour prevalecem. Em cada trabalho ela mostra que honra seu público, quase em sua totalidade gays. Fugindo das modinhas e tendências, ela jamais teve a pretensão de ser uma ‘Nova Madonna’, como tantas já tentaram.

Cada nova cantora que surge logo assume o posto de candidata a substituir Madonna. Foi assim com Britney (que continue morta!), Rihanna e mais recentemente Lady GaGa, a única que realmente possui alguma semelhança com a Rainha do Pop.

Depois de Madonna, Lady GaGa foi a única cantora que realmente conseguiu criar para si uma imagem icônica, quando surgiu com suas perucas e roupas estranhas, sem medo de ser cafona, e eu devo confessar que achei isso o máximo!

Entretanto, a carreira de GaGa é tão meteórica e tudo nela muda tão rápido, é tão transitório, que na busca por várias identidades, hoje ela não tem nenhuma. Cada momento da vida artística de Madonna é automaticamente associado a um visual. GaGa aparece com uma caracterização diferente em cada performance, e impossibilita que se solidifique um imagem.

Além disso, tudo na carreira de Lady GaGa parece ser etéreo, sem fôlego. Ninguém se lembra do que ela fez dois meses atrás, enquanto os trabalhos de artistas como Madonna perduram por décadas sem perder relevância. Já o clipe de ‘Telephone’ foi lançado somente há três meses e foi totalmente esquecido.

Dias atrás assisti a uma apresentação antiga da GaGa em Glastonbury e senti um certo saudosismo. Aquela primeira Lady GaGa era tão mais interessante! Tudo parecia espontâneo e original, com nuances de música independente, o que só deixava sua performance ainda mais atraente. Hoje o que se vê é um produto industrializado, desprovido da deliciosa essência que ela mostrava com entusiasmo no palco, há cerca de um ano e meio.

Queria muito que ela visse seus vídeos antigos e recuperasse o rumo que perdeu. E espero que ela permaneça sim no sucesso, para quem sabe, perceber isso algum dia. Seria bom para os fãs, para a música, e para os órfãos de Madonna, que infelizmente terá de se aposentar algum dia!

9 comentários:

Tulio Cobain disse...

Puta texto!
Eu também queria que a GaGa voltasse a ser quem ela era no começo. Sinto falta. :)

Fernanda Érika disse...

Concordo com você em praticamente tudo, porém uma coisa ainda me incomoda...Pode não ser sua intenção, ou eu posso estar interpretando errado, mas sempre que você fala sobre Kylie, me passa a sensação de parcialidade, quando ao meu ver, deveria passar o contrário quando se pretende falar sobre as obras das divas do pop, sejam elas quem forem.Talvez eu tenha essa sensação por saber que você é fã de Kylie, mas o texto em si, assim como o anterior sobre "Alejandro", é muito bom e muito bem escrito.Adoro ler seus textos!Parabéns! ;D

Miau disse...

Maik me emociona. Sério.

Carlos, Carlinhos, Getúlio disse...

Sabe, Mika, o que me impressiona é somente o fato de tecer análise tão profunda e elucidadora sobre lugares cujos espectadores em grande maioria não se importa e a gente considerada séria não é espectador. Tu consegue mostrar o lado sério desse mundo através de uma visão tão aguçada e uma reflexão tão perspicaz. Adoro a Madonna, tu sabe o que a fase erótica dela representa pra mim. A Kylie me faz agitar, seus refrões, tipo uma Enya eletrônica e insandecida, são como se a própria Afrodite ordenasse a meu corpo que se mexesse e Vivesse!. Quanto à GaGa, gosto muito do som, porém não conheci a fase originária dela e não posso dizer que ela me marque profundamente, muito embora eu das três, ela tenha o visual que eu mais aprecio, já que adoro coisas bizarras e não tão radiantes assim^^^. Parabéns pelo texto, que está vigoroso e bem escrito.

Maik disse...

Meus textos aqui nunca são imparciais, ou ninguém percebeu os verbos em primeira pessoa? O blog é um tipo de atmosfera informal que me permite isso, e jamais pretendi o contrário. Meu texto não é jornalístico.

Helder disse...

calma gente maik não puxa o saco pro lado da kylie não ele apenas gosta muito dela e acha ela perfeita.seria até impossível que a impressão de puxa saco não ficasse no "ar".

e quanto a comparar artitas é besteira. se lady gaga muda muito agora e não tem personalidade imagina kylie.basta ver seus shows nos quais ela já se vestiu de tudo e usou todas as perucas do mundo.

mas uma coisa é certa: cada uma tem um foco. kylie é só curtição e mágica. madonna é polêmica, e lady gaga é cedo para falar. por isso é injusto comparações.

Helder disse...

olha aí que engraçado apesar de eu não concordar muito pois foi muito maldade uma vez que algumas coisas são mesmo universais:
http://www.youtube.com/watch?v=Lo2RcQr42BY

Anônimo disse...

Eu não percebi que o Maik puxa pro lado da Kylie. Acho sim. que ele tem argumentos, e esse é ponto de vista dele, que eu concordo INFINITAMENTE. Mas claro, cada um com suas preferências, em nada aí ele mentiu, porque conhecendo o Maik, e conhecendo a música pop, sei exatamente do que ele está falando, a minha performer prferida é a Beyoncé, e mesmo sendo falado dela, reconheço o argumento dele e concordo. Outra coisa, estava conversando cm um amigo que IDOLATRA Lady Gaga, e eu perguntei pq ele gostava tanto dela. ele se liitou a dizer que ela arraza, eu tenho quase certeza que a paixão dele por ela começou a partir da decalração do VMA onde ela oferece seu prêmio a Deus e aos gays. Eu conclui, Gaga elegeu o público gay(as novinhas que se rasgam nas comunidades) como seu público, se elegeu a rainha dos gays através de palavras e alguns protestos, logo sabemos que os gays é o público alvo de qualquer cantora pop (choquei?). O público gay(mais velho, ou conhecedores) elegeu Madonna como rainha, o contrario da primeira. E a Kylie, Kylie é paz, amor e liberdade. Acredito que não ha tanto conteúdo nas letras de Kylie acredito por que não se via necessário por questões culturais, políticas e sociológicas. Kylie Austrália e Madge nos EUA, esse último um estado bem mais propicioso a preconceitos de todos os tipos, tem nem o que discutir! e outra Kyie é uma travesti operada... e Pronto final!

Anônimo disse...

Fã Fervoroso - Acho muito difícil em pleno século XXI haver originalidade de verdade em um artista, quando tudo já foi criado (tenho medo dessa frase, mas...)e o que temos hj,na minha humilde opinião, é reciclagem e nao cópia.
São poucos os artistas q são reconhecidos no seu tempo. Falar hoje da originalidade de Gaga, quando a mesma tem pouco tempo de carreira,é muito precipitado. Madonna no início de sua carreira tinha um visual q não passava do punk e da moda dos anos 1980.